O século XII
ocupa um lugar próprio na história da filosofia medieval. Explicar
a singularidade desta posição tem constituído um excelente motivo
para repensar a especificidade e os ritmos da própria filosofia no
período medieval.
A lista de
factores que permitem compreender as mudanças e a posição que
diferencia este período relativamente aos anteriores e aos
posteriores é necessariamente longa e quase roça o paradoxo, tão
contraditórios parecem[1]. Vejamos a
articulação de alguns dos mais importantes, enumerados sob a forma
imperfeita do que poderia ser um índice de capítulos que mereceriam
só por si extensos desenvolvimentos. Uma recapitulação esquemática
das mudanças experimentadas ao longo do século XII e que dê uma
imagem mínima da complexidade do que está em jogo não poderá deixar
de referir que:
— o crescimento demográfico e urbano conjugado com
autênticas revoluções na produção e circulação de bens, operadas
nos domínios agrário, industrial e comercial tornam a vida mais
independente a uma faixa populacional em rápido crescimento que se
ocupa da transmissão dos saberes, bem como das burocracias
eclesiástica e dos estados nascentes;
— às novas formas de poder senhorial, comunal ou
real, também não são estranhas as reformas monásticas e
eclesiásticas que pretendem reafirmar e consolidar a supremacia
espiritual e também temporal da Igreja;
— as modificações introduzidas nas formas da vida
religiosa, de forma a garantir a sua superioridade moral, a que
também já se chamou “reforma”[2], deu um
contributo notável para o desenvolvimento e difusão do saber, que
continuava confinado aos diversos círculos da vida clerical, apesar
do aparecimento dos primeiros grupos de letrados laicos que
cultivam sobretudo a poesia nas cortes reais e
senhoriais;
— o regresso à vida monástica nos séculos XI-XII
deve-se também a um ressurgir da atracção pela vida evangélica, que
seria continuada ou radicalizada no séc. XIII pela emergência das
ordens monásticas mendicantes, que actuam sobretudo nos meios
urbanos, em ambos os casos (i.e. no século XII e no século XIII) o
saber e o estudo acabariam por desempenhar um importante papel
pastoral;
— a instituição de escolas faz parte das
necessidades e da estratégia de afirmação simbólica e religiosa da
autoridade dos mosteiros e das canónicas claustrais recentemente
fundados em meio urbano;
— ao revigorar das escolas (claustrais,
catedralícias, comunais ou pessoais) e da actividade literária em
geral corresponde a redefinição sociológica do lugar e dos
privilégios dos que estudam e ensinam;
— o poder simbólico das escolas fica bem expresso
no percurso dos seus próprios mestres, cuja fama e importância os
projecta para lugares cimeiros no interior da hierarquia
eclesiástica, muitos dos quais viriam a ser nomeados bispos (v.g.
Gilberto de Poitiers ou João de Salisbúria), enquanto outros
grandes dignitários passam invariavelmente a ostentar o título de
magister, porque obtiveram a respectiva licentia,
embora não seja certo que alguma vez tenham ensinado; não faltam
mesmo as acusações àqueles que se dedicavam ao estudo apenas com a
ambição de ascenderem socialmente;
— as diversas inovações introduzidas no fabrico e
difusão do livro tornam-no mais reprodutível e embaratecem-no,
dando origem a uma verdadeira indústria de cópia, localizada em
centros urbanos e monásticos bem definidos, o que por sua vez torna
mais acessível a posse privada de volumes e o crescimento das
bibliotecas monacais;
— as mudanças no conteúdo das artes e do gosto
plasmam-se nas novas construções, cuja maior criação será o estilo
gótico; a arte da pintura, que reaparece em grande escala na
ornamentação e iluminura de livros, transmite também um novo e rico
imaginário figurativo;
— o âmbito de reflexão sobre os conteúdos da fé
deslocará lentamente da exegese e pregação da sacra
pagina, para uma dilucidação dos seus fundamentos ou
teologia;
— a abertura do saber a novos domínios é induzida
pelas discussões que ocorrem no interior da tradição intelectual e
religiosa latina, mas conta também com o extraordinário contributo
da ciência árabe e do reaparecimento da ciência grega, que irrigam
os conteúdos do saber escolar através de novos tratados e de
traduções greco-latinas ou arabo-latinas;
— a multiplicação de orientações das ciências faz
entrar em crise os modelos clássicos de organização do saber, que
não comportavam a autonomia de disciplinas
emergentes;
— o dinamismo da vida intelectual faz-se também
sentir com novas formas de controlo e censura, como é bem
demonstrado pelas acusações perante concílios e nalguns casos com
condenações, embora de efeitos muito limitados, por exemplo, contra
teólogos como Pedro Abelardo, Gilberto de Poitiers ou Pedro
Lombardo e as suas Sentenças, que ironicamente se imporiam
nos dois séculos seguintes como o manual escolar de estudo da
Teologia;
— todos e cada um dos lances de renovação são
acompanhados por outros tantos esboços de resistência, numa
autêntica e persistente querela de antigos e modernos. Mas, para
concluir a enumeração, tenhamos bem presente que não é possível
atribuir a mudança a um ou outro factor isolado. Desta acumulação e
conjugação de factores e orientações, por vezes divergentes e em
cujo devir estão também presentes nítidas tensões e hesitações
pessoais e sociais, resultará uma situação nova no que diz respeito
à filosofia, onde, de acordo com os modelos da época, devemos
incluir a teologia e as ciências[3].
Aparentemente
esta renovação dos quadros do saber centra-se nos mais importantes
centros urbanos do reino franco: Laon, Reims, Chartres, Paris. Pura
redução. O fenómeno é geograficamente muito disseminado. Desde logo
temos a península Itálica que lhe disputa a primazia não só para as
ciências da medicina e dos direitos (onde o seu pioneirismo e
predomínio são inquestionáveis), mas também para as traduções
greco-latinas de filosofia helénica e da patrística, para além de
serem daí originários alguns dos mais influentes pensadores em todo
o processo, como Anselmo de Aosta e Pedro Lombardo. A renovação das
ciências das coisas, as artes do quadrivium e as ciências
exactas, depende essencialmente das traduções e de obras compostas
na península Ibérica, região onde ao longo de um século será
realizada a mais impressionante massa de traduções científicas,
médicas, filosóficas e religiosas a partir do árabe, por um vasto e
ainda pouco conhecido conjunto de tradutores não só hispânicos, mas
também atraídos um pouco de toda a Europa; de facto, na Península
Ibérica encontramos também itálicos, francos, um eslavo,
germânicos, britânicos e conversos, a traduzir obras do árabe para
latim[4]. Das ilhas
britânicas provêm alguns importantes mestres em Paris e um ou outro
tradutor activo na península Ibérica, mas ainda não se destaca aí
nenhum centro escolar. Da Bretanha, que na época não pertencia aos
reinos francos, provém a figura mais destacada da filosofia do
século: Pedro Abelardo. Mas, as mudanças são bem visíveis e
fazem-se sentir um pouco por toda a Europa. Na Germânia é ainda no
interior dos mosteiros que sopram as novas preocupações, tal como
nas regiões mais periféricas, como em Portugal (ver o próximo
artigo) ou mesmo no mundo eslavo de onde provém Hermano de
Caríntia.
O crescimento
da comunidade dos que ensinam e estudam e as divergentes
aproximações ao mundo e aos textos que daí resultam, fazem a
polemização regressar ao interior da vida intelectual. A
compreensão do papel dos diferendos doutrinais é importantíssima
para reconstituir todo o processo de renovação das escolas e da
filosofia. No século XI eles já são bem visíveis, embora o seu
cerne sejam quase sempre temas teológicos, mas as polémicas
situam-se ao nível metodológico ou dos fundamentos filosóficos do
discurso, como vemos ocorrer nas posições anti-dialécticas de um
Pedro Damião, ou nas polémicas entre Berengário de Tours e
Lanfranco de Pavia, ou entre Anselmo de Cantuária e Gaunilo. A
rivalidade entre mestres prolongar-se-á e será precisamente uma
marca distintiva do século XII, estando mesmo na origem da criação
de diversas escolas. O mosteiro de São Victor de Paris será fundado
por Guilherme de Champeaux, que aí se "refugia" na sequência das
disputas que manteve com o seu antigo discípulo Pedro Abelardo.
Este mestre atrai estudantes que o seguem por todo o lado, como um
batalhão segue o seu comandante. Abelardo, depois de ter estudado
em Paris começa por ensinar em Melun:
«Logo a partir das primeiras lições, a minha fama de dialéctico
assumiu tais proporções que não só a reputação dos meus antigos
condiscípulos, como mesmo a do meu mestre [Guilherme de Champeaux]
ficou ofuscada. Estes êxitos mais me aumentaram a confiança: levei
a minha escola para Corbeil, cidade mais próxima de Paris, para
poder entregar-me a mais frequentes combates.» Abelardo,
Ep. 1, § 2 (Historia calamitatum mearum), in:
Cartas de Heloísa e Abelardo, trad. F. de Sousa, Estúdios
Cor, Lisboa, s/ data, p. 15.
Veja-se bem:
levei a minha escola (scolas nostras transferrem),
trata-se sem dúvida de uma escola pessoal, como muitas outras que
pululam nos grandes centros, formando-se ou desaparecendo de acordo
com o percurso dos mestres, tal como aconteceu com esta, na
sequência do esgotamento que Abelardo narra depois desta passagem.
Ao longo desta sua carta autobiográfica Abelardo afirma como vai
refundando a sua escola em diferentes locais, a mais importante das
quais será dedicada ao Paracleto, que com os seus discípulos ergueu
nos arredores de Paris, «porque a isso me compeliu a intolerável
miséria em que me encontrava», idem § 11). Abelardo, um intelectual
sem rendimentos eclesiásticos, precisa de ensinar para viver. O
regresso de Abelardo às disputas dialécticas e a entrada na exegese
bíblica e na teologia prolongam as suas desditas, mas não deixa de
ir repetindo, ufano e com uma certa vaidade de que depois se
lamentará, como a perseguição de que era alvo por parte do seu novo
oponente, Anselmo de Laon e seus discípulos, contribuem para
aumentar a sua fama de lógico: «Quanto mais se difundia [a calúnia
levantada contra mim], mais crescia a minha honra e querendo
perseguir-me tornou-me mais famoso» (Abelardo, Ep. 1, § 4:
Historia calamitatum mearum, ver também § 12, etc.). A
desdita escolar e teológica de Abelardo tinha começado um pouco
antes quando em Reims a sua doutrina trinitária é acusado de
heresia perante um concílio que o condenaria, acusação levantada
por dois antigos colegas que agora dirigiam as escolas da cidade,
também discípulos dos já desaparecidos Guilherme e Anselmo, e que
«queriam reinar sozinhos e suceder» aos mestres que tinham tido em
comum (idem, § 9). Anos depois será a ira de Bernardo de Claraval
que se abate sobre Abelardo, ataque que mais uma vez interpreta
ainda como consequência da sua fama de mestre e dialéctico. As
próprias palavras de Bernardo no início do requisitório enviado ao
papa parecem dar-lhe razão:
«Temos em França um homem que de velho filósofo se fez novo
teólogo, que desde a sua juventude se entreteve na arte da
dialéctica e que agora quer profanar as Sagradas Escrituras com os
seus desvarios e extravagâncias. Não se contenta em renovar os
erros que antes foram condenados tanto na sua pessoa como na de
outros, mas ainda inventa novas falsidades. É um homem temerário
que (...) abre com insolência a boca contra o céu e se esforça, em
vão, por penetrar os profundos segredos de Deus. (...) fala-nos de
mistérios inefáveis de que não é permitido ao homem falar. Mas, ao
vangloriar-se de estar pronto a dar razão de todas estas coisas,
empreende, contra a razão e contra a fé, dar razão das coisas que
estão acima da razão. Com efeito, que há de mais oposto à razão que
pretender elevar-se acima da razão apenas com as forças da razão?
E, que há de mais contrário à fé que não querer crer em tudo o que
não se pode compreender pela razão?» Bernardo de Claraval,
Contra os erros de Pedro Abelardo, Cap. 1 («Expõe e refuta
a ímpia doutrina de Abelardo relativa ao mistério da Santíssima
Trindade») PL clxxxii, col. 1055.
A elegância
retórica com que Bernardo aborda o problema encerra um ataque muito
violento contra a pessoa de Pedro Abelardo, mas através dele contra
os esforços cada vez mais generalizados de abordar de um "modo
técnico", isto é: através da razão e da dialéctica, os conteúdos da
fé. Esta redução da transcendência ao discurso é para Bernardo uma
intolerável profanação, que pelo contrário prega incessantemente a
submissão humana à autoridade da palavra revelada, como forma de
atingir a sabedoria.
Neste ataque
são atingidas as próprias escolas públicas, orientadas sobretudo
para as ciências da linguagem que aplicam a todos os domínios do
saber, mesmo aos textos de autoridade que Bernardo pretendia
preservar de um tal tratamento. As Escrituras e a ordem
eclesiástica fornecem o cenário no interior do qual adquirem
sentido todas as novidades e todas as resistências doutrinais ao
longo do século, quer se trate das discussões entre lógicos, ou das
querelas entre teólogos, ou das tentativas de compreensão da génese
da natureza, ou das divisões das ciências, ou da ordem e finalidade
do ensino das ciências, ou até das formas do poder
político.
As discussões
teológicas herdadas do século XI (transsubstanciação, Trindade,
etc.) enfrentam dificuldades que em muitos casos serão
ultrapassadas com o recurso às ciências da linguagem,
principalmente a lógica, estudada cada vez com mais profundidade. É
neste contexto de emergência teórica que reaparecem algumas
traduções de Boécio do Organon aristotélico e que durante
séculos tinham acumulado pó em bibliotecas monásticas, é o caso dos
Tópicos, dos Primeiros Analíticos e das
Refutações sofísticas, que com a nova tradução dos
Analíticos posteriores formaram aquela que passou a ser a
logica nova. A assimilação destes textos, difíceis e
completamente fora dos quadros a que até então se confinava a
doravante designada logica vetus, justificavam o esforço
de os estudar de modo autónomo. Mas, não serão as escolas
monásticas ou catedralícias a incorporá-las nos seus planos de
estudos, embora aqui e ali se detecte que começavam ser conhecidos
nestes meios. Essa empresa caberá aos inúmeros studia
pessoais que se formam em Paris, sobretudo na segunda metade do
século, mas que progressivamente evoluirão para escolas com alguma
continuidade e organização formal e que se dedicam
predominantemente ao estudo dos textos aristotélicos redescobertos.
Quase todas funcionam ou se organizam em torno de mestres eminentes
como Abelardo (o mais conhecido dos nominales), ou Adão de
Balsham (ou Parvipontanus, porque a sua escola se situava
perto do Petit Pont), ou Albérico (possível mestre dos
Montani, porque instalados no Monte de Santa Genoveva), ou
Roberto de Melun mestre dos Melidunenses), ou Gilberto de
Poitiers (cuja escola e pensamento eram identificados como
Porretani). Os diferendos teóricos e as discussões
cruzadas são a principal característica destas escolas, em busca de
uma cada vez mais profunda interpretação do texto base. (Não é
difícil imaginar que estas autênticas hordas de jovens estudantes
se envolvessem em tumultos e chegassem ao próprio confronto físico
quando as discussões sobre lógica e linguagem se azedavam e as
palavras e os argumentos se tornavam insuficientes…). É desta
espiral interpretativa e crítica que surgirão algumas das mais
importantes inovações da lógica medieval, desde logo a teoria da
suppositio[5]. Estes mestres
e estudantes entregam-se ao ruidoso estudo das ciências da
linguagem como um fim em si mesmo e não apenas como simples etapa
num plano de elevação espiritual ou como instrumento para a
compreensão da sacra pagina, começando assim a romper-se o
preceito dado por Agostinho no De doctrina christiana
quanto ao fim e utilidade das artes do trivium ou
"ciências da linguagem". O sucessso da logica modernorum e
a entusiástica convicção que estes mestres tinham da novidade das
suas especulações instaura um optimismo gnosiológico que permitia
todas as esperanças quanto ao poder e ao crescimento do
conhecimento.
Ao longo do
século, o pensamento experimenta profundas modificações apesar
dessas serem realizadas a partir de uma pequena estante de fontes
bem conhecidas desde há alguns séculos: os gramáticos romanos,
Macróbio, Marciano Capela, Boécio, Isidoro de Sevilha e Cassiodoro,
a parte inicial do Timeu de Platão e sobretudo os
prolíficos padres latinos Jerónimo e Agostinho. Com obras como o
Didascalicon de Hugo de S. Victor, ou o De naturis
rerum de Alexandre Neckam estamos em pleno apogeu do
enciclopedismo clássico romano que a patrística havia transmitido,
onde as ciências não são senão uma parte do plano de formação que
conduz à sabedoria e antes de mais à inteligência da Sacra
pagina. Também em outros domínios são elaboradas reconstruções
sistemáticas que pouco acrescentam em factos, teorias e argumentos
à cultura científica, teológica e filosófica alto-medieval, mas que
pela sua amplitude e reelaboração de conteúdos introduzirão
profundas novidades. É o caso do direito com a compilação do
Corpus iuris civilis em cinco partes, e das três partes do
Decretum ou Concordia discordancium canonum de
Graciano, por exemplo. É também o caso da lexicologia com os
dicionários e distinctiones bíblicas e o grande
Vocabularium de Papias. Mas é sobretudo no domínio
teológico que a aspiração sistemática e enciclopédica se faz sentir
e renova o pensamento, com a multiplicação da literatura de
Sentenças, como as de Pedro Lombardo, Roberto Pullen,
Pedro de Poitiers e tantos outros (sobretudo na península itálica:
Irnerio de Bologna, Gandolfo de Bologna, Rolando, Albérico
veneziano), mas também com esses instrumentos exegéticos
inigualáveis que são as Glossas Ordinária e
Interlinear elaboradas na escola de Anselmo de Laon, e
mesmo a Historia scholastica de Pedro Comestor. Apesar de
serem sobretudo compilações, algumas destes textos mereceram sérias
resistências no momento da sua divulgação, como foi o caso das
Sentenças de Pedro Lombardo, acusadas de dar mais lugar à
discussão racional que à penetração do texto bíblico, mas que se
tornariam durante pelo menos dois séculos o livro de texto para o
ensino da Teologia. No domínio teológico não é menos interessante
que entre as obras mais comentadas e apreciadas se encontrem
precisamente os Opuscula sacra de Boécio, comentados por
Teodorico de Chartres, Gilberto de Poitiers e Clarembaldo de Arras,
entre muitos outros que os utilizam nas discussões sobre a
Trindade, de tal modo que M-D. Chenu viu na «mentalidade
filosófica» do século XII uma autêntica aetas boethiana
(cfr. cap. VI da obra cit. na nota 3). A nova sistemática para a
Teologia proposta por um Gilberto de Poitiers, encontra a sua
expressão mais acabada na interessante literatura axiomática que se
inspira preferencialmente no Quomodo substantiae do mesmo
Boécio, aplicada agora a temas mais amplos em obras como a Ars
fidei catholicae de Nicolau de Amiens, ou as Regulae
caelestis iuris de Alano de Lille,
Mesmo os
"tratados" de Filosofia respiram o enciclopedismo tardo-antigo
distribuído pela ordem pedagógica das sete artes liberais. É o caso
do Didascalicon de Hugo de S. Victor,, ou do anónimo
Tratctatus quidem de philosophia et partibus
eius[6] que dele
depende, ou do Heptateuchon de Teodorico de Chartres,
Apesar da evidente dependência destes textos face à tradição
encilopedista tardo antiga e alto-medieval, ao retomarem o tema em
moldes novos serão também responsáveis por modificações
importantíssimas no domínio epistemológico discutindo os problemas
da distinção, organização, interdependência, metodologia e objecto
próprio de cada ciência. O problema é também evocado ou
insistentemente discutido nos comentários do De Trinitate
de Boécio, em cujo capítulo II é apresentada uma classificação das
ciências. Os saberes profanos, reorganizados em torno das artes
liberales, lentamente evoluirão para outras diferenciações
entre disciplinas científicas, doravante alargadas à metafísica, à
física, às ciências naturais, à biologia, com a progressiva
separação metodológica da medicina, do direito e da teologia. Esta
divisão seria acentuada e consagrada pela organização e programas
de estudos das escolas urbanas e das universidades embrionárias, a
qual, de certa forma perdura até hoje, através dos modelos de
organização curricular instituídos nas universidades a partir dos
séculos XIII e XIV. De facto, a literatura de divisão das ciências
e as pequenas súmulas escolares sobre a filosofia, que aparecem
aqui e ali ao longo do século XII, terão um papel central na
recomposição do campo filosófico e científico (ou são pelo menos o
resultado de alterações verificadas). Mas, os principais
responsáveis pela entrada em crise do modelo das sete artes
liberais serão as obras que já incorporam referências aos textos de
proveniência árabe, como o De eodem et diverso de Adelardo
de Bath, mas sobretudo o De divisione philosophie do
hispânico Gundissalino, onde confluem diversas tradições
filosóficas e em particular a árabe, nomeadamente as obras afins
atribuídas a Al-Farabi, traduzidas pouco antes para latim.
Doravante também as tradicionais artes do quadrivium serão
insuficientes para abarcar os novos domínios e também já não serão
apenas estudadas pelo contributo que poderiam dar para a
compreensão das Escritura, acentuando-se também aqui uma
certa desaugustinização das "ciências das
coisas".
O
enciclopedismo também não está ausente do novo interesse pela
natureza, na sua vertente cosmológica, campo de problemas
minuciosamente discutido, quase sempre como investigação e
comentário da narrativa da criação no Génesis, mas
procurando explicar a natureza pela natureza, ou pelo menos com o
auxílio do excerto do Timeu de Platão, que circulava em
tradução latina de Calcídio e com o seu comentário. Estes textos de
cosmologia são abundantes e aí se incluem a Philosophia de
Daniel de Morley, e o De essentiis de Hermano de Caríntia,
dois autores filo-árabes, bem como a Cosmographia de
Bernardo Silvestre, o De sex dierum operibus de Teodorico
de Chartres, o Dragmaticon e a Philosophia de
Guilherme de Conches, o De planctu naturae e o
Anticlaudianus de Alano de Lille, a Imago mundi
de Honório de Autun (de facto de Regensburg), mas também a sua
Clavis physica que retoma em paráfrase ou de modo literal
esse comentário do Génesis que é o Periphyseon de
Escoto Eriúgena.
É no mesmo
fluxo da tradição teísta cristã que sobressai a mística e
espiritualidade da obra de Bernardo de Claraval e do seu discípulo
Guilherme de Santo Teodorico. Apelo espiritual que podemos
identificar com a teologia monástica e que encontramos em Hugo de
São Victor e nos vitorinos, mas também no profetismo visionário de
Joaquim de Flora, ou na obra de duas abadessas germânicas,
Hildegarda de Bingen e Herrad de Hohenburg (até há pouco associada
à família dos Landsberg), que com uma gramática de especulação
simbolista integram num pensamento original de eminente intenção
mística e sapiencial elementos de outros campos do saber. É sempre
e ainda o pensamento clássico e alto-medieval que reencontramos
reelaborado na resposta aos problemas e anseios da época, não sem
um certo fechamento e recusa das novas orientações do saber, com
uma preferência argumentativa pela retórica em detrimento da
dialéctica.
A recuperação
do ideal clássico de racionalidade é também permitido e potenciado
pelas traduções do legado científico e filosófico grego e árabe,
que induzirão extensas modificações nos quadros e conteúdos do
pensamento e moldarão a escolástica nascente (sobre as traduções
ver acima nota 4). A reorientação da teologia[7] e do saber em
geral na sua busca de fundamentação racional,[8] abandonando o
alegorismo e a argumentação simbolista, exegética e de autoridade,
herdada da patrística e alta Idade Média, é bem a expressão dessas
inovações que resultam da conjugação dos novos interesses
naturalísticos e da nova epistemologia, que permitem repensar o
homem e o seu lugar no cosmos. Tullio Gregory, notável conhecedor
do pulsar da filosofia medieval e da singularidade do século XII,
sintetiza nestas palavras esse corte filosófico: «Contrastant avec
cette expérience, cette contemplation sacrée du cosmos, une
nouvelle expérience, qui mûrit au cours du XIIe siècle,
prend un relief et une signification particuliers: elle propose une
contemplation physique du monde s’efforçant de saisir la
legitima causa et ratio de tout évenement physique, en
dehors des traditionelles intérpretations et transpositions
allégoriques et symboliques; cette expérience dénote aussi la
découverte d’une nouvelle dimension humaine dans un cosmos
qui n’est plus un tissu de symboles mais une réalité
substantielle où l’on peut lire autre chose que des messages
spirituelles, et qui permet à l’homme de mesurer ses
nouvelles possibilités d’action.»[9] Este é o
século XII da renovação filosófico-naturalística.
Contudo, esta
visão do século XII não pode fazer esquecer ou reduzir a
importância epocal de obras com orientação doutrinal diversa da
dessa "renascença".[10] Nem todos os
intelectuais se renderam às novidades do século, podemos até dizer
que a maioria continua a pensar nos mesmos quadros e sob a luz das
tradicionais fontes de autoridade: a Bíblia, a patrística, S.
Agostinho. Mesmo neste quadro de tradição e resistência, o século
XII é inovador, veja-se, por exemplo, o contributo especulativo da
"teologia monástica", cujo ritmo é sobretudo espiritual e
contemplativo[11]. A
coexistência e por vezes confronto entre a lectio divina e
a lectio philosophorum dá ao pensamento uma pluralidade de
vias que permitem compreender e explicar este súbito "renascimento
da filosofia". Contrariamente ao que se poderia depreender de
algumas apreciações superficiais, não foi a simples tradução de
obras que modificou a filosofia. O impacto das traduções é
consequência das alterações de interesses e sobretudo de
metodologia da discussão de questões essencialmente teológicas,
ocorrida desde o século XI, que a abriu a novos métodos e a outras
exigências de fundamentação. Basta ver que as traduções não
produziram por si sós quaisquer alterações onde quer que fosse, mas
adquiriram importância nos locais onde a discussão, a curiosidade
científica e o desejo de explicar criaram condições para a sua
recepção. Portugal poderá constituir um bom contra-exemplo desta
leitura, pois, tendo aqui ocorrido a recepção ou pelo menos
circulação de uma massa considerável de textos árabes e estando-se
também em contacto com esta cultura rica e havendo quem a pudesse
traduzir, a região de facto não desempenhou qualquer papel neste
processo de mediação cultural, nem decorreu daí qualquer criação
inovadora, isto devido sobretudo aos interesses específicos dos
monges e à não existência de solicitações intelectuais que
provocassem um recurso criativo aos textos.
Pelo menos no
campo da filosofia, ao longo do século XII, sobretudo com a
triunfante utilização da dialéctica e suas formas de demonstração,
bem como com o repensar dos problemas cosmológicos envolvidos na
discussão da criação divina, vemos constituirem-se problemas os
campos de problemas adequados para uma recepção produtiva das obras
traduzidas, porquanto respondiam com elementos de nova autoridade a
velhas inquietações intelectuais sobre o sentido da verdade, da
natureza e do homem. No seu início o fenómeno não é generalizado,
pelo contrário, é restrito e localizado: Toledo, Catalunha e a
Sicília, com uma titubeante recepção em Chartres e Paris e pouco
mais. Demorará algum tempo até que "a nova biblioteca" acabe por se
impor um pouco por toda a Europa, mas já em pleno século XIII,
mesmo nos meios monásticos e agostinianos que inicialmente lhe
tinham resistido, embora aqui de uma forma mais matizada que nas
faculdades de Artes rapidamente rendidas ao novo
paradigma.
Foi desde a
publicação em 1927 do seminal e hoje clássico estudo de Charles
Homer Haskins, The Renaissance of the Twelfth
Century,[12] que o termo
“renascimento” também passou a ser associado a este
amplo processo de renovação dos quadros intelectuais, artísticos,
sociais e científicos do ocidente latino cristão. A designação foi
cunhada para estabelecer uma analogia com a Renascença italiana,
caracterizada antes de tudo pela recuperação dos ideais
humanísticos clássicos. No entanto esta designação é insuficiente
porque, durante o século XII, não assistimos a uma simples atitude
de recepção da filosofia, da literatura e da ciência antigas, de
expressão grega ou latina. A designação «Renascimento», usada com a
intenção de revalorizar o século XII, na realidade deturpa ou
encobre alguns outros aspectos próprios da situação do saber neste
século e que já foi descrita pela tríade recepção,
mediação, inovação.[13] Em
primeiro lugar, não estamos perante um período de simples recepção
do pensamento clássico como um fim. Por outro lado, são múltiplos
os autores com contributos filosóficos inovadores; quer do ponto de
vista literário, onde encontramos, por exemplo, os já referidos
textos sob forma de axiomas, dentro da tradição boeciana, mas
também as sumas e literatura de questões; quer do ponto de vista
doutrinal, nas ciências naturais,[14] na lógica dos
termos,[15] na
metafísica[16] e na
teologia[17]. Em segundo
lugar, os autores do século XII e os medievais em geral, ao
contrário dos intelectuais dos séculos XIV-XV, não se vêm em
ruptura com o seu próprio tempo ou o imediatamente precedente;
Lambert Marie de Rijk diz mesmo que «L’idée de continuité
était justement typique de la conscience médiévale, même
d’une façon déraisonable à nos yeux. Leur propre progrès a
toujours été ressenti comme prolongeant les sources antiques, même
si c’était une fiction.»[18] A atitude de
ruptura invocada com insistência pelo “rinascimento”
dos séculos XIV-XV, que antes de tudo se vê como reacção
anti-escolástica, não tem correspondência no período
medieval.
O
«renascimento» do século XII caracteriza-se antes de mais pela
integração das novas fontes na tradição cultural existente, a que
não é estranho o conflito entre moderni e
antiqui. Aos próprios intelectuais não é estranha a
consciência da sua modernidade e das transformações que ocorrem na
sua época. Diz Guiberto de Nogent por volta de 1115/7, quando teria
cerca 65 anos de idade:
«Outrora, e mesmo no tempo da minha juventude [por volta de
1065], os mestres de gramática eram tão escassos que não os havia
nos burgos e com dificuldade se encontravam nas cidades. E quando
se encontravam, o seu saber era tão ténue que nem mesmo o
poderíamos comparar ao do dos clérigos vagabundos dos tempos
modernos (moderni temporis clericulis vagantibus).»
Guibert de Nogent, Autobiographie, ed E.R. Labande, Les
Belles Lettres, Paris 1981, p. 26 (cit. por J. Verger, La
renaissance…, obra cit., p. 99 e n. 30).
Guiberto
espanta-se como no decurso da sua vida ocorre esta radical mudança
no que diz respeito ao conhecimento. O autor da Vita
Gosuini exprime o apetite dos modernos pelas novidade
lógicas:
«Por esta altura [circa 1110] um gramático famosíssimo
[Abelardo? de quem Gosuino foi discípulo no monte de Santa
Genoveva] produziu comentários sobre as obras de Prisciano [as
Glosulae de Abelardo?] que por todos foram elogiadas,
tanto pela profundidade dos seus sentidos como pela elegância da
exposição, mas sobretudo porque muitos aceitam mais as novas
coisas, rejeitam as velhas com a chegada das novas, embebem-se nas
coisas novas e pregam a novidade». Vita Goswini (cit. por
C.J. Mews, «Philosophy and Theology …», art. citado, pp.
182-3 e n. 158).
mas na continuação do texto o autor cita as interrogações do
bem-aventurado Gosuino sobre a possibilidade de ganhar a eternidade
através do conhecimento das regras do discurso correcto sem manter
o uso da recta regra de vida. Já Adelardo de Bath, orgulhoso dos
seus conhecimentos de ciência árabe e colocando-se numa outra
perspectiva, é muito mais pessimista quanto à possibilidade de os
modernos aceitarem a inovação, dado o apego aos saberes
tradicionais de que não conseguem distanciar-se:
«(...) um meu sobrinho (...) solicitou-me que publicasse algo
novo ao modo da ciência árabe. Como os restantes concordaram com
ele, tomei em mãos o tratado que segue: não tenho dúvidas sobre a
sua utilidade para os leitores, mas duvido que lhes agrade. A
presente geração tem esta arreigada fraqueza de pensar que nada do
que é descoberto pelos modernos é digno de ser aceite - o resultado
disto é que se eu quiser publicar algo de minha própria invenção
devo atribuí-lo a alguém diferente e dizer: “Certo indivíduo
disse isto, não eu”. Assim, (...) foi um certo grande homem
que descobriu todas as minhas ideias, não eu.», Adelardo de Bath,
Quaestiones naturales, prol. (c. 1137).
A posição
conciliadora entre antigos é modernos é-nos dada pela afortunada
metáfora de Bernardo de Chartres, que conjuga um certo pessimismo
histórico (menor estatura dos modernos) com um optimismo
gnosiológico (podemos ver mais coisas).
«Somos como anões aos ombros de gigantes, pois podemos ver mais
coisas do que eles e mais distantes, não devido à acuidade da nossa
vista ou à altura do nosso corpo, mas porque somos mantidos e
elevados pela estatura de gigantes.» Bernardo de Chartres, referido
por João de Salisbúria, Metalogicon III, 4 (ed. Webb,
Oxford 1929, p. 136 l. 23-27.[19]
O que a
metáfora deixa também transparecer é a consciência de continuidade,
de inserção numa tradição, que, pelo menos no âmbito da filosofia,
permite aos intelectuais do século XII ver mais longe, inovar. Este
"renascimento" do séc. XII não reflecte, pois, nem um desejo de
ruptura com o próprio tempo, nem a passividade perante os modelos
recebidos. É neste solo da tradição de problemas, linguagens e
reflexões, lentamente acumulados ao longo dos séculos precedentes,
que entroncam as novas linhagens intelectuais. Propondo uma
síntese, Alain de Libera fala de «duas renascenças do século XII»
(mas não conta com a da tradição monástica). Em primeiro lugar um
"renascimento autóctone", isto é, que resulta do desenvolvimento
das artes da linguagem (artes sermocinales) e da sua
influência crescente nos domínios da ciência sagrada. Abelardo é o
verdadeiro campeão desta renascença intrínseca à tradição cristã,
que encontrará em S. Bernardo o mais acérrimo adversário, acolhido
sob um humanismo literário e retórico que procura preservar o ideal
espiritual da vida monástica, posição que vira a ser derrotada pela
supremacia da lógica, triunfante pelo menos até ao século XIV. Em
segundo lugar o "renascimento científico" que tem Toledo como
centro e parte da apropriação cultural do legado
greco-árabe[20]. Cada um
destes "dois renascimentos" do século XII, a par com as
resistências monásticas, terão a sua continuidade ao longo dos
séculos seguintes, bem evidente por exemplo nas oposições entre
agostinianos e aristotélicos que serão o sal da filosofia nos
séculos XII-XV.
No século XII
a vida intelectual complexifica-se, decorrendo em múltiplos planos
de abordagem da realidade e sendo geograficamente pluricentrada,
dando uma inequívoca impressão de aceleração do pensamento. Para
compreender melhor a singularidade do século XII basta olharmos
para os séculos X-XI, que o preparam mas que não o igualam em
dinamismo de instituições, em diversidade de personagens e em
intensidade de polémicas. Comparemo-lo também com o século XIII:
este aparece-nos simultaneamente como continuação radical (por
exemplo quanto à eminência metodológica da lógica) e como absoluta
diferença (por exemplo quanto aos conteúdos do saber e à sua
organização e quanto à nova orientação aristotélica dominante). Ao
olhar para os autores e textos mais marcantes deste século, desde
Anselmo de Aosta, que morre em 1209 ocupando a dignidade de
arcebispo de Cantuária, até João de Salisbúria que morre em 1180
como bispo de Chartres (sem conseguir restabelecer a importância
deste centro intelectual), poderemos dizer que, em filosofia, o
século XII começa nas últimas décadas do século XI e se esgota
antes da última década do século XII. Mas, se nos distanciarmos
mais um pouco veremos que o próprio pensamento de Anselmo é
incompreensível se não o contextualizarmos na última metade do
século XI e que os últimos epígonos da renovação intelectual do
século XII escrevem ainda algo para lá do início do século XIII,
como Alano de Lille e Alexandre Neckam[21]. A verdadeira
continuidade entre os séculos XII e XIII será obra das referidas
pequenas escolas parisienses de lógica, com subtis mas bem vivas
delimitações teóricas, em geral dirigidas por mestres anónimos mas
com grande capacidade de atracção de estudantes e que estarão na
origem da universitas scholarium. Será no interior desta
instituição (cujos centros mais importantes serão Bologna para os
direitos, Salerno e depois Montpellier para a medicina, Paris e
depois Oxford para as artes e a teologia) que ocorrerão as mais
importantes criações filosófico-teológicas e científica nos três
séculos seguintes.
Numa palavra,
estamos perante uma época que não é demarcada por factos que a
balizem de modo taxativo, mas sim defronte a um século e meio de
contínuas mudanças institucionais onde um certo número de
pensadores tomados na sua individualidade e diferença, voltaram a
adquirir um relevo que se havia perdido nos séculos precedentes,
nessa dinâmica das ideias, dos argumentos e das teorias a que
chamamos filosofia.
(Continua no próximo número: (2) Em Portugal: A
cultura que vem da Europa e o legado
árabe).
* Desenvolvo aqui a
primeira parte de «Ecos da renovação filosófica do século XII, em
Portugal no tempo de Afonso Henriques. A cultura que vem da Europa
e o legado árabe», in IIº Congresso Histórico de Guimarães, D.
Afonso Henriques e a sua época (Guimarães, 24-27 de
Outubro de 1996), Actas do Congresso, vol.
IV: Sociedade, administração, cultura e Igreja em Portugal no
século XII, Câmara Municipal de Guimarães, Guimarães 1997 (pp.
151-170). A segunda parte, sobre a filosofia em Portugal no séc.
XII, será publicada no próximo número.
[1] As tentativas
de balanço e síntese sucedem-se. A título de exemplo: M. de
Gandillac — E. Jeauneau (org.) Entretiens sur la
Renaissance du 12e siècle, Ed. Mouton, La Haye-Paris 1968; M.
Clagett — G. Post — R. Reynolds (eds.),
Twelfth-Century Europe and the Foundations of Modern
Society, The University of Wisconsin Press, Madison and
London, 1966; R.L. Benson — G. Constable (eds.) — and
Carol D. lanham, Renaissance and Renewal in the Twelfth
Century, Clarendon Press, Oxford 1982; Françoise Gasparri
(org.), Le XII.e siècle. Mutations et renouveau em France dans
la première moitiè du XIIe siècle (col. Cahiers du Leopard
d’Or, 3) Ed. Le Leopard d’Or, Paris
1994.
[2] B. Bolton,
A reforma na Idade Média. Século XII, trad. M.L. Veloso
(Lugar da História, 26) Ed. 70, Lisboa 1986. Uma síntese mais
recente sobre as mudanças ocorridas entre os séculos XI e XII na
vida monástica e sua influência no pensamento religioso e na
espiritualidade em G. Constable, The Reformation of the Twelfth
Century, Cambridge University Press, Cambridge 1996. Sobre o
movimento de reforma na Península Ibérica, ver a continuação deste
estudo, a publicar no próximo número.
[3] A
especificidade da filosofia no século XII tem recentemente merecido
especial atenção. Para além de contributos específicos relativos à
filosofia que se encontram nas obras referidas na n. 1, ver em
especial P. Dronke (ed.), A History of Twelfth-Century Western
Philosophy, Cambridge University Press, Cambridge 1988; A.
Speer, «Reception-Mediation-Innovation. Philosophy and Theology in
Twelfth Century», Veritas 39 (1994) 269-386; Constant J.
Mews, «Philosophy and Theology 1100-1150: The Search for Harmony»,
in F. Gasparri (dir.), Le XII.e siècle. Mutations et
renouveau… (obra cit. na n. 1); e os estudos sobre o
século XII coligidos na obra de Tullio Gregory citada na n. 7.; uma
excelente e actualizada reconstituição do séc. XII
filosófico-teológico, com imponentes bibliografias, encontra-se na
parte quarta da obra: Giulio D'Onofrio (dir.), Storia della
Teologia nel Medioevo, vol. II: La grande fioritura,
Ed. Piemme, Casale Monferrato 1996, pp. 7-468.
[4] Não sendo
possível tratar aqui em detalhe sobre este aspecto, remeto para
dois estudos onde se encontra um panorama completo das tradução
realizadas e a sua importância para as ciências e a filosofia
latinas: Marie-Thérèse d'Alverny, «Translations and Translators»,
in R.L. Benson et al. (eds.), Renaissance and
Renewal…, obra cit., pp. 421-462; e H. Daiber
«Lateinische Übersetzungen arabischer Texte zur Philosophie und
ihre Bedeutung für die Scholastik des Mittelalters. Stand und
Aufgaben der Forschung», in J. Hamesse — M. Fattori (org.)
Rencontres de cultures dans la philosophie médiévale.
Traductions et traducteurs de l’antiquité tardive au XIVe
siècle (Publications de l’Institut d’études
médiévales - Textes, études, congrès, 11 / Rencontres de
philosophie médiévale, 1), Louvain-la-Neuve - Cassino 1990, pp.
203-250. Para um conspecto da importância das traduções na
renovação filosófica, ver P.B. Rossi, «La nuova biblioteca», in P.
Rossi — C.A. Viano (org.) Storia della filosofia, 2. Il
Medioevo (Enciclopedie del sapere) Ed. Laterza, Roma-Bari,
1993 (pp. 159-179).
[5] Uma parte
importante destes textos lógicos do século XII, na sua maior parte
anónimos, encontra-se publicada em L.M. de Rijk, Logica
modernorum. A Contribution to the History of Early Terminist
Logic. Vol. I: On the Twelfth Century Theories of
Fallacy; vol. II, 1-2: The Origin and Early Development of
the Theory of Supposition, Van Gorcum, Assen
1962-1967.
[6] Gilbert Dahan,
«Une introduction a la philosophie au XIIe siècle. Le
Tratctatus quidem de philosophia et partibus eius»,
Archives d'histoire doctrinale et littéraire du Moyen Âge,
42 (1982)155-193.
[7] Cfr. por
exemplo M.-D. Chenu, La théologie au douziéme siécle
(Études philosophiques médiévales, 45), J. Vrin, Paris 1975 (3ª
ed.). A análise da constituição da teologia como ciência ao longo
dos séculos XI e XII, com ampla referência aos textos e
restringindo-a ao seu sentido mais técnico de campo temático dos
conteúdos doutrinais e dogmáticos da fé, encontra-se nos cap. 3-5
da obra de J. Pelikan, La tradition chrétienne. Histoire du
dévelopement de la doctrine, vol. III, Croissance de la
théologé médiévale (600-1300), trad. A.-S. Martin, J.
Pillone-Portet, rev. R. Brague (Théologiques) PUF, Paris 1994, pp.
113-280.
[8] O Aristóteles
"redescoberto" pelo século XII desempenhará um papel central neste
processo, com obras como os Analíticos posteriores, a
Metafísica, etc., cfr. A. Speer, «Reception...», art.
cit., p. 385.
[9] T. Gregory, «La
nouvelle idée de nature et de savoir scientifique au XIIe siècle»,
in J.E Murdoch — E.D. Sylla (eds.) The Cultural Context
of Medieval Learning, Dordrecht-Boston 1975, pp. 193-212,
reed. in T. Gregory, Mundana sapientia. Forme di conoscenza
nella cultura medievale (Storia e letteratura. Racolta di
studi e testi, 181) Edizioni di Storia e letteratura, Roma 1992,
pp. 115-143, cfr. p. 116.
[10] Veja-se a
título de exemplo o volume coordenado por P. Dronke (ed.), A
History..., onde os diversos estudos são apresentados por
secções com títulos que enunciam um programa de leitura parcial do
século XII: «Background», «New perspectives», «Innnovators», «The
Entry of the 'New' Aristotle». O mesmo ocorre na obra de A. Speer
citada abaixo na n. 11.
[11] A designação
"teologia monástica" foi cunhada por J. Leclerc em contraponto com
a "teologia escolástica", identificável com a especulação
universitária, marcada pela utilização metodológica e demonstrativa
da lógica e da técnica de questões, cfr. por exemplo J. Leclerc,
«The Renewal of Theology», inR.L. Benson — G. Constable
(eds.) — and Carol D. lanham, Renaissance and Renewal in
the Twelfth Century, obra cit. na n. 1. Sobre as "duas"
teologias ver E. Maccagnolo, «Teologia monastica e teologia
scolastica nei secoli XI e XII», in V. Mathieu (cur.) Questioni
di storiografia filosofica. Dalle origini all’Ottocento.
vol. 1: Dai presocratici a Occam, Ed. la Scuola, Brescia
1975, pp. 523-577. A discussão dos conceitos, da sua génese
historiográfica e do que eles descrevem encontra-se também em Cl.
Leonardi, «La teologia monastica» (pp. 295-321) e F. del Punta
— C. Luna, « La teologia scolastica» (pp. 323-353), in G.
Cavallo — C. Leonardi — E. Menestò (cur.), Lo
spazio letterario del medioevo, 1. Il medioevo latino, vol. I:
La produzione del testo, t. 2, Salerno editrice, Roma
1992.
[12] C.H.
Haskins,The Renaissance of the Twelfth Century, Cambridge
(Mass.) 1927; veja-se uma actualização em J. Verger, La
Renaissance du XIIe siècle (Initiations au Moyen Age) Ed. du
Cerf, Paris 1996, que se centra sobretudo na
teologia.
[13] Cfr. A. Speer,
«Reception...», art. cit., aqui usado nesta caracterização
da filosofia e da renovação filosófica no século XII. Do mesmo
autor ver A. Speer, Die entdeckte Natur. Untersuchungen zu
Begründungsversuchen einer «scientia naturalis» im 12.
Jahrhundert (Studien und Texte zur Geistesgeschichte des
Mittelalters, 45), E.J. Brill, Leiden 1995. Nesta obra sobre a
concepção de natureza nos mais inovadores filósofos do século XII
faz-se uma oposição talvez demasiado esquemática e exagerada entre
a teologia e os métodos naturalísticos de sistematização
racionalista, que as próprias orientações doutrinais dos autores
estudados parecem desmentir em alguns pontos, cfr. É.-H. Wéber,
«Bulletin d’histoire des doctrines médiévales», Revue des
sciences philosophiques et théologiques 80(1986) 603-638, cfr.
pp. 608-9.
[14] M.-D. Chenu,
La théologie..., op. cit., pp. 18-61; ver também T.
Gregory, Mundana sapientia..., op. cit. e P. Dronke (ed.)
A History..., op. cit.
[15] Cfr. L.M. de
Rijk, Logica modernorum...., obra cit.
[16] Uma boa imagem
da diversidade e riqueza de orientações metafísicas, suscitadas por
problemas teológicos, encontra-se em A.T. Canavero (cur.),
L’infinita via. Ragione natura e trinità, da Anselmo a
Tommaso (Quodlibet: ricerche e strumenti di filosofia
medievale, 7) Pierluigi Lubrina, Bergamo 1990.
[17] Veja-se por
exemplo o interessante estudo de R. Berndt, «La théologie comme
système du monde. Sur l’évolution des Sommes théologiques de
Hugues de Saint-Victor à Saint Thomas d’Aquin, in Revue
des sciences philosophiques et théologiques 78 (1994)
55-72.
[18] L.M. de Rijk,
La philosophie au Moyen Age, trad.P. Swiggers, E.J. Brill,
Leiden 1995, p. 78.
[19] ; cfr.
Francesco Lazzari, «Nani sulle spalle di giganti», in idem
Mistica e ideologia tra XI e XIII secolo, Ricardo
Ricciardi Ed., Milano-Napoli, 1972 (pp. 133-157).
[20] A. de Libera,
La philosophie médiévale (Premier cycle) PUF, Paris 1993,
pp. 310-312.
[21] Embora
limitando o seu juízo à teologia, é essa a opinião de J. Leclerc,
«The Renewal of Theology», art. cit., p. 70: «We can therefore
claim that the "theological renewal of the twelfth century" took
place between aproximately 1075 and 1224».